sexta-feira, 30 de julho de 2010

TITÃS – “Quanto Tempo”. Parte 1

Para quem não sabe, os Titãs um dia já foram a maior banda brasileira, tanto na parte musical, quanto na questão da popularidade. Produziram obras primas como “Cabeça dinossauro” e “Titanomaquia”, entre outros. Apesar do retrospecto glorioso, a banda vive hoje de lembranças. Lembranças de um tempo bom, de um passado fértil e criativo, bem distante dos últimos dez anos atravessados. Criada no início da década de oitenta, em 1982 eles já causavam estranheza no público, apresentando um grande número de integrantes. Eram nove: Arnaldo Antunes (vocal), Paulo Miklos (vocal, sax, guitarra), Marcelo Frommer (guitarra), Sérgio Britto (vocal, teclado), Toni Belloto (guitarra), Branco Mello (vocal), Nando Reis (baixo, vocal), André Jung (bateria) e Ciro Pessoa (vocal). Essa formação adotou o nome “Titãs do Iê-Iê” e a proposta inicial foi fazer apenas uma releitura da Jovem Guarda. Dois anos depois, com a saída de Ciro Pessoa em 84, assinaram com a WEA e lançaram o primeiro disco, auto-intitulado. Sem estilo definido ainda, o único sucesso foi “Sonífera Ilha”, que chegava a ser cantada de 3 a 4 vezes durante os shows. Segundo Sérgio Britto, “a falta de um estilo próprio, de um direcionamento musical definido era proposital, uma ideologia da banda”. Na verdade era tudo muito brega e sem ousadia musical. Nesse disco, também encontramos as músicas “Toda cor” e a complexa “Balada para John e Yoko”. Quanto ao resto das canções, tudo se mostra dispensável por aqui. Em 85 eles gravam o álbum “Televisão”, produzido por Lulu Santos. O grupo começou o ano com um novo baterista, Charles Gavin. Com a nova formação, os Titãs emplacam os hits "Insensível" e "Televisão". Como aconteceu no primeiro disco, as vendas foram modestas e ainda predominava uma variação no estilo do grupo, onde canções mais pesadas dividiam espaço com registros mais pops. O disco não é ruim, e nota-se um certo amadurecimento por parte dos integrantes. A canção “Massacre” já era um prelúdio para o rock pesado que se ouviria nos próximos discos. No mesmo ano, a banda ficaria marcada pela prisão de Arnaldo Antunes e Tony Belloto por porte de drogas. Foram 26 dias de cárcere, onde Arnaldo relata momentos de angústia e desespero por parte de ambos. Em 1986 gravam o majestoso “Cabeça dinossauro”. Com esse álbum, os Titãs finalmente encontraram uma fórmula e uma maneira própria de se fazer rock no país. Apesar da temática das músicas ser uma cópia barata da banda feminina “Mercenárias”, tudo aquilo produzido no álbum se tornou único e o disco foi eleito um dos mais importantes da história do Rock Brasil. No mesmo ano onde os Paralamas do Sucesso alcançavam estrondoso sucesso com "Selvagem?", a Legião Urbana com "Dois", e o RPM com "Rádio Pirata", os Titãs precisavam acompanhar a evolução sonora daquele período. Dessa forma, resolvem convocar o produtor Liminha, responsável pelos principais álbuns da década de 80, e que havia sido criticado através da imprensa por alguns integrantes da banda paulista. Em entrevista para a Folha de S.Paulo, em 2006, Sérgio Britto reconheceu o trabalho do produtor. "O Liminha foi o responsável pela realização do nosso maior sonho: gravar com qualidade, liberdade e em altíssimo astral", disse. Um outro fator contribuinte para o sucesso foi o ataque as instituições como a igreja, a família, o Estado e, principalmente, a polícia ("Polícia para quem precisa / Polícia para quem precisa de polícia"). Com certeza, um clássico indiscutível e imprescindível de nosso acervo. No ano de 1987 sai “Jesus não tem dentes no país dos banguelas” e mais uma vez Liminha assume a produção. O registro é praticamente um sucessor sonoro do “Cabeça”, dessa vez misturando peso com inovações eletrônicas. De um lado do disco tínhamos "Lugar Nenhum", "Desordem" e "Nome aos Bois". Do outro, mais inovação: o sampler, uma novidade naqueles tempos, que proporcionou um tom eletrônico a "Todo Mundo Quer Amor", "Comida" (composição de protesto que, em vez de pedir comida, pedia arte e cultura) e "Corações e Mentes". Corajosamente, a banda decidir fazer o show de lançamento do novo álbum em pleno Hollywood Rock de 1988. A apresentação dos Titãs foi eleita pela crítica especializada a melhor do festival, superando Simple Minds, UB40, Pretender, Simply Red e outros grupos internacionais. No mesmo ano, participam do Festival de Montreux, na Suíça. Desse show resultaria o disco ao vivo "Go back", lançado em 1988, que vendeu mais de 320 mil cópias, no qual o grupo incluiu a faixa-título "Go back", música de Sérgio Britto sobre poema de Torquato Neto - poeta ligado ao Tropicalismo que se suicidou em 1972. Ainda deste disco regravariam várias faixas que foram sucessos anteriores: "Polícia", "Não vou me adaptar", "Jesus não tem dentes no país dos banguelas", "Nome aos bois" e "Marvin". Em 89 sai “Õ Blésq Blom”, obtendo boa repercussão dentro da crítica e aceitação por parte do público. Bem mais eletrônico, o disco foi eleito "o vinil mais bem produzido que este país já viu", pela revista Bizz. Até o fim de 1990, alcançou a marca de 220 mil cópias, no rastro de canções como "Flores", "O Pulso" e "Miséria". Vale ressaltar também a participação da dupla de repentes pernambucanos Mauro (ex-estivador e auto-intitulado "O Rei do Rock") e sua esposa Quitéria, que cantavam com um poliglotismo curioso, misturando palavras em inglês, italiano, grego, russo e japonês, na introdução e na vinheta final do álbum. A música "Medo" foi a primeira faixa a ser lançada em CD-single no Brasil - ainda assim, o produto foi destinado somente às rádios. Dessa forma os Titãs encerravam a década de maneira honrosa...(continua...).

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